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Vida sim, drogas não

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Vida sim, drogas não.

 

Nilo Momm[1]

 

"Vida sim, drogas não" é o lema da Campanha da Fraternidade, aprovado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), para o ano 2001.

A Campanha da Fraternidade de 2001, ao colocar em pauta a questão das drogas, será uma interpelação da consciência pessoal e coletiva e um apelo à conversão, para que, diante do desafio dessa expressão da anticultura da morte, respondamos com a defesa e a promoção da vida, pois a Igreja tem a convicção de que a vida é o primeiro de todos os bens, em consonância com os ensinamentos e a missão de Jesus, que afirma: "Eu vim para que todos tenham a vida e a tenham em abundância" (Jo 10,10).[2]

 

Vida sim

 

A vida é um bem tão precioso que a grande promessa de Jesus é que ela será eterna, porque o nosso Deus é o Deus da vida. Este Deus da vida quer também a vida, a mais feliz possível, já, aqui e agora, não só depois da morte.[3]

No Evangelho segundo São João, Jesus nos diz que quem nele crê tem a vida eterna. Não diz terá; fala no presente. Trata-se também desta vida mesmo, daqui da terra, vivida no clima de Deus, cheia de um novo sentido.

Dom Hélder Câmara, de saudosa memória, não se cansava de dizer: Feliz de quem atravessa a vida inteira tendo mil razões para viver.

A droga não é o problema principal do dependente. O consumo de droga é somente uma resposta falaz à falta de sentido positivo da vida.

No centro da dependência se encontra o homem, sujeito único e irrepetível, com sua interioridade e personalidade específica, objeto do amor do Pai que, em seu plano salvífico, chama a cada um à sublime vocação de filho. Sem dúvida, a realização de tal vocação é – junto com a felicidade neste mundo – gravemente comprometida pelo uso da droga, porque ela, na pessoa humana, imagem de Deus (Gn 1, 27), influi sobre a sensibilidade e sobre o reto exercício do intelecto e da vontade.

Não podemos viver sem esperança. Temos de ter algum objetivo na vida, algum significado para nossa existência. Temos de aspirar a alguma coisa. Sem esperança, começamos a morrer.[4]

A Igreja é “especialista em humanidade”.[5] No centro de suas preocupações está o homem, objeto do amor criador, redentor e santificador de Deus, Uno e Trino. Jesus Cristo, “propter nos homines et propter nostram salutem” (por nós homens e por nossa salvação), desceu do céu, se encarnou, morreu e ressuscitou.

A pessoa é chamada a viver em (ex sistere) comunhão com Deus, consigo mesma, com o próximo, com o ambiente.[6] Viver tais relações, em especial aquela com os outros, torna evidente a plena e integral vocação da corporeidade masculina e feminina, que desvela o sentido profundo da vida humana, como vocação ao amor.[7]

A proposta da Igreja é um projeto evangélico sobre o homem. Anuncia a todos que vivem o drama da toxicodependência e sofrem uma existência miserável, o amor de Deus que não quer a morte mas a conversão e a vida (Ez. 18, 23). Aqui se trata da vida plena, da vida eterna, proclamada em meio a situações que a põem em perigo ou a ameaçam.

Ao toxicodependente, carente fundamentalmente de amor, tem que fazer conhecer e experimentar o amor de Jesus Cristo. Em meio a uma decisão atormentada, no vazio profundo da própria existência, o caminho até a esperança passa pelo renascer de um ideal autêntico de vida. Tudo isto se manifesta plenamente no mistério da revelação do Senhor Jesus. Quem toma substâncias entorpecentes deve saber que, com a graça de Deus, é capaz de abrir-se a quem é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo. 14, 6).

 

Drogas não

 

O uso habitual de drogas, porque capaz de aniquilar a médio prazo o discernimento do homem, tornando-o indiferente ao certo e ao errado e alheio à noção de responsabilidade, agride-lhe gravemente a dignidade de ser pensante e de indivíduo livre.[8]

O uso da droga causa gravíssimos danos à saúde e à vida humana. Salvo indicações estritamente terapêuticas, constitui falta grave. A produção clandestina e o tráfico de drogas são práticas escandalosas; constituem uma cooperação direta com o mal, pois incitam a praticas gravemente contrárias à lei moral.[9]

Drogas são geradoras de morte. Estão, em conseqüência, em desacordo com o projeto de Deus para a humanidade.[10]

O comércio, com o conseqüente consumo de substâncias entorpecentes, constitui uma séria ameaça para as estruturas sociais das nações americanas. Isto “contribui para a criminalidade e a violência, para a destruição da vida familiar e da vida física e psicológica de muitos indivíduos e comunidades, sobretudo dos jovens. Além disso, corrói a dimensão ética do trabalho, favorecendo o aumento de pessoas recluídas em cárceres, numa palavra, o envilecimento da pessoa criada à imagem de Deus”. Um comércio tão funesto como este causa, ademais, a “destruição de governos, corroendo a segurança econômica e a estabilidade das nações”.[11]

 

Escolher a vida

 

Somos aquilo que escolhemos. Saber escolher é decisivo na vida. Vou me tornando aquilo que escolho. Não existe caminho traçado. Não existe determinismo. Ninguém pode dizer: “eu nasci assim e minha vida vai continuando assim”. A vida é uma escolha permanente. Uma escolha que faz renunciar outras escolhas. Em cada dia renova-se a escolha. Minhas ações, meu trabalho vão caminhando segundo minhas escolhas.[12]

É preciso sempre escolher a vida.. Ter capacidade de escolha é exercer a decisão de sempre escolher aquilo que ajuda a viver, aquilo que promove a vida. Escolher em cada dia tudo aquilo que ajuda a viver, é deixar de lado comidas e bebidas que estragam o corpo, as drogas que destroem a capacidade de livre decisão, é deixar de lado emoções e sentimentos que prejudicam, é saber abandonar preocupações que apenas tiram o sono e a alegria da vida.

A escolha da vida é a escolha do que nosso coração mais deseja. Somos feitos para viver. Saber escolher a vida é saber escolher a Deus. É escolher tudo aquilo que é de Deus. É escolher o amor e a paz. É escolher as pessoas, que são um desejo de vida. É escolher a natureza que continuamente renova a vida no universo.

Em cada dia há uma nova escolha, porque tudo em nós é mudança, é evolução, é nova oportunidade. Porém, é bom saber que a escolha é acompanhada de uma renúncia. A escolha maior deixa no caminho outros desejos que necessitam ser renunciados para a escolha definitiva. A escolha definitiva será a soma das escolhas que foram feitas durante a vida. Se escolhemos viver, teremos como recompensa a vida plena e eterna, a felicidade.

 

Princípios básicos

 

Existem princípios básicos para uma vida proveitosa e as pessoas podem conquistar a verdadeira felicidade duradoura quando aprendem a respeitar estes princípios básicos.[13]

Uma lei gravada na natureza humana...[14] Aceitação sincera dos princípios imutáveis...[15] Contemplando os valores sagrados e adotando-os como seus, o homem progride em sua auto-afirmação e auto-realização.[16]

Os dons exclusivamente humanos que Deus nos deu, da autoconsciência, da imaginação e da consciência nos dão o poder de escrever os nossos próprios papéis. Trata-se na realidade de reescrevê-los, ou seja alterar os nossos paradigmas, na medida em que os reconhecemos como ineficazes ou incompletos.

Somos capazes de usar a imaginação e a criatividade para escrever novos papéis, mais eficazes, mais de acordo com nossos valores mais profundos e com os princípios corretos que lhes dão sentido.

O comportamento humano é baseado no binômio plantar - colher. As pessoas colhem o que semearam. Não existe nenhum atalho.

Existem três mapas sociais amplamente aceitos:

O primeiro é o mapa genético que diz que a culpa de tudo é de seus avós. Por causa deles você é tão mal humorado, tão desastrado. Está tudo registrado no DNA. Passa de geração em geração. Você herdou tudo.

O segundo é o mapa psíquico que diz que a culpa é de seus pais. Sua educação e as experiências da infância o fizeram assim. Deram forma a sua personalidade e a estrutura de seu caráter. Lá no fundo você sempre se lembra do roteiro emocional que  decorou quando era muito pequeno.

O terceiro é o mapa ambiental que diz que a culpa é do seu amigo, do seu chefe, da sua mulher, do seu marido, do filho adolescente respondão, da situação econômica, do padre, do governo, dos políticos... Alguma coisa em seu meio ambiente é responsável por sua situação.

Cada um destes mapas baseia-se na teoria de Pavlov do estímulo e resposta com base em experiência com cachorros. Somos condicionados a reagir de determinada maneira a um estímulo particular. Para cada ação existe uma reação natural.

Mas isto é só para cachorro. Nós somos humanos e, para nós, entre cada estímulo e resposta encontra-se a liberdade de escolha, o livre arbítrio do ser humano.

 

Dons humanos

 

Deus nos deu dons especiais que nos distinguem dos demais animais. Temos a autoconsciência (habilidade para pensar a respeito do próprio processo de pensamento), a imaginação (capacidade para criar na mente imagens que superam a realidade), a moral (consciência profunda do que é certo ou errado) e a livre escolha (capacidade para agir conforme nossa autoconsciência, livre de qualquer influência). E ainda podemos fazer tudo isto com humor. Com muito humor...[17]

Nossos dons exclusivos nos elevam acima do mundo animal.

As drogas agem exatamente sobre estes dons humanos. Isto nos leva a pensar que as mesmas nos tornam semelhantes aos animais irracionais.

Nada mais correto do que dizer que o usuário de drogas, ao longo de sua trajetória, se afasta aos poucos do status de homem livre e se transforma, por fim, em um imbecil.[18]

Por outro lado, não se deve subestimar que o usuário de drogas, muitas vezes, acredita que é um homem livre, senhor de seus atos. Ocorre que, alienado em sua pseudo liberdade, o usuário de drogas deixa de considerar "a vida um dom esplêndido de Deus, uma realidade sagrada confiada à sua responsabilidade e, consequentemente, à sua amorosa defesa, à sua veneração"[19].

Deus fez boas todas as coisas e criou o homem à sua imagem e semelhança, livre e senhor responsável de toda a criação. Deus conferiu ao homem o domínio sobre a terra, mas impôs-lhe limites no uso da natureza. O homem não é, desta forma, o senhor absoluto da criação (Gn 1-3).

Deus, quando criou o homem o fez a sua semelhança e o criou único. Nos seis bilhões de habitantes que existem sobre a terra, não existem dois exatamente iguais, não existiram e não existirão. "Uno, único e irrepetível... Eternamente idealizado, eternamente escolhido, chamado e denominado por seu nome".[20]

Vivem sem felicidade verdadeira porque não tem esperança. Precisamos chegar até eles como mensageiros da esperança.[21]

Não podemos viver sem esperança. Temos de ter algum objetivo na vida, algum significado para nossa existência. Temos de aspirar a alguma coisa. Sem esperança, começamos a morrer.[22]

Vós nos fizestes para vós, ó Senhor, e nossos corações permanecem aflitos enquanto não descansam em vós. (Santo Agostinho)

O homem vai para Deus, seu destino final. Ele viaja em direção à cidade santa. (Sl 122, 1-4; Is 2, 2-5 e 35, 10). Um peregrino a caminho do absoluto.[23]

 

A posição da Igreja

 

O problema das drogas em toda a sua extensão, isto é, da produção ao consumo, é uma corrente de males de caráter pessoal e estrutural. É verdadeiro pecado que atenta contra a vida e a dignidade humana.[24]

A droga é um mal e ao mal não se dá trégua. A legalização, mesmo que parcial, mesmo sendo uma interpretação da índole da lei, não surtiu os efeitos previstos.[25]

A posição da Igreja é firme e continua clara: não legalizemos as drogas.[26] A legalização das drogas é apenas uma perigosa ilusão, porque não enfrenta o efeito devastador da dependência e deixa de lado o compromisso da prevenção.[27]

Toxicodependência e alcoolismo, pela intrínseca gravidade e pela devastadora extensão, são dois fenômenos que ameaçam o gênero humano, tirando de cada indivíduo, no ambiente familiar e no tecido da sociedade, as profundas razões da esperança que, para ser verdadeira, há de ser esperança na vida - esperança de vida.[28]

Toxicodependência e alcoolismo são contra a vida. Não se pode falar de "liberdade de se drogar" nem de "direito à droga", porque o ser humano não tem o direito de prejudicar-se e não pode nem deve nunca abdicar da dignidade pessoal que vem de Deus.[29]

Traficantes da liberdade de seus irmãos, que os fazem escravos com uma escravidão mais terrível do que a escravidão dos negros. Os mercadores de escravos impediam o exercício da liberdade. Os narcotraficantes reduzem suas vítimas à destruição da própria personalidade.[30]

A droga é um voto interior de evasão e sufoca a essência do espírito muito antes da destruição física.[31]

Há um voto existencial solitário, devido à ausência de valores e a uma falta de confiança em si próprio, nos outros e na vida em geral.[32]

Só o empenho pessoal do indivíduo, sua vontade revigorada e sua capacidade de autodomínio podem assegurar o retorno do mundo alucinante dos narcóticos à normalidade.[33]

A distinção entre drogas leves e pesadas negligencia e atenua os riscos inerentes a toda sorte de produto tóxico, em particular os que levam à dependência, por atuarem sobre as estruturas psíquicas, reduzindo a consciência do indivíduo e levando-o à alienação da vontade e da liberdade pessoais.[34]

A perda do ideal e do engajamento na vida adulta que observamos nos jovens torna-os particularmente frágeis. Seguidamente, eles não são incitados a lutar por uma existência correta e bela, mas acabam por desenvolver a tendência de se fechar em si mesmos. Não sabemos mais minimizar o efeito devastador exercido pela desocupação de que são vítimas os jovens, em proporções indignas de uma sociedade que pretende respeitar a dignidade humana.[35]

Os jovens que tem uma personalidade estruturada, uma formação humana e moral sólida, e que vivem relações harmoniosas e confiantes com os colegas de sua idade e com os adultos, estão mais aptos a resistir às solicitações daqueles que propagam a droga.[36]

A virtude da temperança manda evitar toda espécie de excesso, o abuso da comida, do álcool, do fumo e dos medicamentos. Aqueles que, em estado de embriaguez ou por gosto imoderado pela velocidade, põem em risco a segurança alheia e a própria, nas estradas, no mar e no ar, tornam-se gravemente culpáveis.[37]

 

A proposta da Igreja

 

A luta contra o flagelo da toxicomania é ocupação de todos, cada um segundo a responsabilidade que lhe cabe.[38]

Aos toxicodependentes, às vítimas do alcoolismo, às comunidade familiares e sociais, que tanto sofrem por causa desta enfermidade dos seus membros, a Igreja, em nome de Cristo, propõe como resposta e como alternativa a terapia do amor. Deus é amor, e "quem não ama permanece na morte" (1Jo 3,14). Mas quem ama saboreia a vida e permanece nela![39]

Não se combatem os fenômenos da droga e do alcoolismo nem se pode conduzir uma eficaz ação para a recuperação das suas vítimas, se não se recuperarem preventivamente os valores humanos do amor e da vida, os únicos capazes, sobretudo se iluminados pela fé religiosa, de dar significado pleno à nossa existência.[40]

Esse mal pede um novo empenho de responsabilidade no interior das estruturas da vida civil e, em particular, mediante a proposta de modelos de vida alternativos.[41]

Prevenção, repressão, reabilitação: estes são os pontos centrais de um programa que, concebido e levado a efeito à luz da dignidade do homem, embasado na honesta relação entre os povos, terá o reconhecimento e o apoio da Igreja.[42]

A resposta da Igreja ao fenômeno da toxicodependência é uma mensagem de esperança e um serviço que vai além do fato em si, pois chega ao núcleo central da pessoa humana. Não se limita a eliminar somente o mal, mas propõe também a redescoberta do verdadeiro sentido da vida. É um serviço da escola evangélica e realizado por meio de formas concretas de acolhida, que, na prática, traduzem uma proposta de vida e uma mensagem de amor.[43]

Para a estratégia de prevenção é necessário o concurso "de toda a sociedade: pais, escola, ambiente social, meios de comunicação social, organismos internacionais; um empenho para formar uma sociedade nova, com o rosto do homem; a educação para ser homem"[44].

A família é, sem dúvida alguma, a referência principal de cada ação de prevenção.[45] Exorto, portanto, os cônjuges a desenvolver relações conjugais e familiares estáveis, fundadas num amor único, durável e fiel.[46]

Mas para todos aqueles que já caíram na espiral das drogas, são necessários oportunos caminhos de cura e de reabilitação, que vão muito além do tratamento médico, porque, em muitos casos, apresenta-se todo um complexo de problemas que requerem a ajuda da psicoterapia, seja do sujeito individual, seja do próprio núcleo familiar, em conjunto, com um adequado sustento espiritual.[47]

Convido os pais que tenham um filho toxicômano a jamais se desesperar, a manter o diálogo com ele, a prodigalizar-lhe sua afeição e a favorecer seus contatos com estruturas capazes de assumir o encargo da cura. A atenção calorosa da família é o grande sustentáculo na luta interior, para o sucesso da cura e da desintoxicação.[48]

Os bispos, reunidos em Santo Domingo, propõem: "Quanto ao problema da droga, implementar ações de prevenção na sociedade e de atenção e cura dos toxicômanos; denunciar com coragem os males que o vício e o tráfico da droga produzem em nossos povos, e o gravíssimo pecado que significa a produção, a comercialização e o consumo. Chamar especialmente a atenção para a responsabilidade dos poderosos comerciantes e consumidores. Promover a solidariedade e a cooperação internacional no combate a este flagelo"[49].

Seja estimulada também a obra dos que se esforçam por recuperar os que se drogam, dedicando uma atenção pastoral às vítimas da toxicodependência: é fundamental oferecer o justo “sentido da vida” às novas gerações que, se este vier a faltar, terminam freqüentemente caindo na espiral perversa dos entorpecentes. Este trabalho de reabilitação social também pode constituir um verdadeiro e próprio empenho de evangelização.[50]

 

A Pastoral da Sobriedade[51]

 

A Pastoral da Prevenção e Recuperação em Dependência Química, agora chamada Pastoral da Sobriedade, deu seus primeiros passos em 1997 e foi criada na 36ª Assembléia Geral da CNBB, em abril de 1998.

Pastoral da Sobriedade é a expressão do Amor gratuito do Pai que desperta em nós a solidariedade com o mundo e com a humanidade, fazendo dos excluídos os nossos preferidos.

Alguns elementos caracterizam a nossa Pastoral:

·        A Pastoral da Sobriedade é Pastoral, isto é, continuação da presença e da ação misericordiosa, amorosa, acolhedora e libertadora de Jesus o Bom Pastor e Bom Samaritano, que acolhe sem reserva, salva, regenera, ressuscita e chama Lázaro a sair do túmulo e a experimentar o novo.

·        É uma ação da Igreja, vivida a corpo, em comunhão com a Igreja e com o amor recíproco entre nós, para permitir a Jesus Ressuscitado viver no meio de nós e fazer passar os dependentes da morte para a vida.

·        É fundamentada na vivência do Evangelho que não apenas liberta das drogas mas faz entrar na dinâmica da vida de Amor de Deus e faz os homens novos que encontram a plenitude e alegria de viver na doação de si.

·        Não é apenas libertação das drogas, mas é proposta de vida nova, reconstrução da dignidade e do valor dos dependentes, imagem e semelhança de Deus que, transformados pelo Evangelho e pelo encontro com Jesus Vivo, assumem um novo projeto de vida, entram na dinâmica trinitária da doação e comunhão e descobrem um novo sentido de vida.

·        A recuperação e a libertação é ação de Deus e não apenas esforço humano, mas valoriza e se serve de todos os recursos médicos e psicológicos oferecidos pelas ciências humanas.

·        A Pastoral da Sobriedade é Pastoral Ecumênica que conclama a todas as Igrejas e pessoas de boa vontade a colaborar e lutar por uma vida plena.

A Pastoral pode atuar nas Paróquias e Dioceses em cinco frentes de trabalho, segundo as possibilidade de cada lugar:

a)      no Campo da Prevenção, para o público que nunca experimentou drogas e para quem já experimentou mas não é usuário, criando grupos ligados à Pastoral da Sobriedade, às demais pastorais e movimentos eclesiais ou grupos preocupados com esta realidade, atuando nas escolas, na catequese, e criando e publicando material apropriado;

b)      no Campo da Intervenção, para o público que já se iniciou no uso de drogas mais ainda não se tornou dependente com necessidade de internação, incentivando a abertura de novos grupos de auto-ajuda nas comunidades, paróquias e escolas como o AA, NA, NATA, NAFTA, AMOR EXIGENTE, TOXICÔMANOS ANÔNIMOS;

c)      no Campo de Recuperação para os usuários de drogas já dependentes, através de comunidades terapêuticas que trabalharão em conjunto com grupos de auto ajuda.

d)      no Campo da Reinserção Social, visando a colaboração da família, da comunidade eclesial e da sociedade civil para o pleno retorno à vida plena.

e)      atuação política: desenvolverá reflexão e atividades juntos aos organismos que atuam na sociedade (Conselhos, fóruns...), defendendo sempre uma política "antidrogas" que seja eficaz, prática e que gere vida.[52]

Quanto ao grave problema do comércio das drogas, a Igreja na América pode colaborar eficazmente com os responsáveis das Nações, os dirigentes de empresas privadas, as organizações não governamentais e as instâncias internacionais para elaborar projetos destinados a eliminar tal comércio, que ameaça a integridade dos povos na América. Esta colaboração deve estender-se aos órgãos legislativos, apoiando as iniciativas que impedem a “reciclagem do dinheiro”, favorecem o controle dos bens dos que estão envolvidos neste tráfego e cuidam que a produção e o comércio das substâncias químicas com que se obtêm as drogas se realizem de acordo com a lei.[53]

 

A Companha da Fraternidade de 2001

 

A Campanha da Fraternidade de 2001, tem por objetivo geral mobilizar a comunidade eclesial e a sociedade para enfrentar o grave e complexo problema das drogas. Como objetivos específicos:[54]

a) contribuir para que a comunidade eclesial e a sociedade sejam mais sensíveis ao compleco problema das drogas , às suas vítimas e às suas danosas conseqüências;

b) mobilizar a própria Igreja para se colocar, mais ainda, profeticamente em favor da vida e da dignidade da pessoa humana, particularmente dos empobrecidos e excluídos;

c) anunciar para o novo milênio uma sociedade sem exclusões, em que a pessoa seja o centro, a vida não se subordine à lógica econômica e o trabalho não se reduza à mera sobrevivência, mas promova a vida em todas as suas dimensões;

d) incentivar amplo movimento de solidariedade para manter viva a esperança das vítimas diretas das drogas, divulgando iniciativas já existentes e estimulando novas;

e) denunciar "com coragem e com força o hedonismo, o materialismo e aqueles estilos de vida que facilmente induzem à droga[55]", bem como os mecanismos sociais do mercado neoliberal que, com seu padrão de consumo insaciável, aumenta a competição e o individualismo, deixando um vazio existencial nas pessoas nele integradas e revolta nas que dele são excluídas, levando umas e outras para o mundo das drogas.

Para que isto aconteça somos chamados a ser portadores de uma mensagem de vida, de alegria e de esperança. Como nosso pai Abraão somos convidados a "esperar mesmo quando não há mais esperança"(Rm 4,18).

Aqui não vale o critério estatístico. Cada vida precisa ser preservada. Como o bom pastor, não basta que salvemos noventa e nove por cento das ovelhas. Aquela que está perdida precisa ser socorrida.

É preciso propor alternativas emocionantes, gratificantes. A própria fé é para ser vivida com a alegria de quem descobre um sentido para a vida e proclama que viver é uma aventura capaz de grandes emoções.

Somos Igreja a serviço do evangelho da vida, vida a ser desenvolvida com dignidade, alegria, paz.

Que o mundo fique um pouquinho melhor depois que nós aqui vivemos.

 

Bibliografia

 

Pastoral da Sobriedade, Nilo Momm, Edições Loyola, 1999.

Prevenção ao uso de drogas, Nilo Momm e Vilsom Basso, Centro de Capacitação da Juventude, CNBB, 1998.

Escola a Felicidade, Vida sem Drogas, Nilo Momm e Juliana Camargo Momm, Edições Loyola, 2000.

Texto-Base da CF 2001, Vida sim, drogas não, CNBB, 2000.

 

Publicado:

 

Encontros Teológicos

Instituto Teológico de Santa Catarina - ITESC



[1] Membro da Equipe Nacional da Pastoral da Sobriedade. e-mail: nilomomm@yahoo.com.br

[2] Dom Raymundo Damasceno Assis, Conjuntura Social e Documentação Eclesial, n. 491.

[3] Texto-base CF 2001, Vida sim, drogas não, p. 53.

[4] João Paulo II, Los Angeles, 1987.

[5] João Paulo II, Populorum progressio, 13.

[6] João Paulo II, Gaudium et spes, 13.

[7] João Paulo II, Familiaris consortio, 11.

[8] Prevenção ao Uso de Drogas, CCJ/CNBB, 1998, p. 60.

[9] Catecismo da Igreja Católica, n. 2291.

[10] Dom Raymundo Damasceno Assis, Conjuntura Social e Documentação Eclesial, n. 491.

[11] João Paulo II, Exortação Apostólica Pós Sinodal Ecclesia in América, n. 24.

[12] Escolha a felicidade, vida sem drogas, Edições Loyola, p. 7.

[13] Escolha a felicidade, vida sem drogas, Edições Loyola, p. 10.

[14] João Paulo II, Redemptionis Donum, 13.

[15] João Paulo II, Mensagem aos católicos chineses, 1995.

[16] João Paulo II, Sinal de Contradição, 18.1.

[17] Escolha a felicidade, vida sem drogas, Edições Loyola, 2000, p. 19.

[18] Prevenção ao uso de drogas, CCJ/CNBB, 1998, p. 61.

[19] João Paulo II, Evangelium vitae, 1995.

[20] João Paulo II, 25.12.1978.

[21] João Paulo II, Nova York, 1979.

[22] João Paulo II, Los Angeles, 1987.

[23] João Paulo II, Lumen Gentium, 49-50.

[24] Dom Raymundo Damasceno Assis, Conjuntura Social e Documentação Eclesial, n. 491.

[25] Ensinamentos de João Paulo II, VII, 2, 1984, p. 349.

[26] Ensinamentos de João Paulo II, VII, 2, 1984, p. 347.

[27] Dom Raymundo Damasceno Assis, Conjuntura Social e Documentação Eclesial, n. 424.

[28] João Paulo II, Conferência Internacional do Pontifício Conselho para a Pastoral da Saúde, 1991.

[29] João Paulo II, Conferência Internacional do Pontifício Conselho para a Pastoral da Saúde, 1991.

[30] Ensinamentos de João Paulo II, IX, 2, 1986, p. 197.

[31] Ensinamentos de João Paulo II, XIII, 2, 1990, p. 1579.

[32] Ensinamentos de João Paulo II, XIV, 2, 1991, p. 1249.

[33] Cardeal Angelo Sodano, Pastoral da Sobriedade, Loyola 1999.

[34] João Paulo II, Seminário Internacional Solidários pela vida, 09.10.1997.

[35] João Paulo II, Seminário Internacional Solidários pela vida, 09.10.1997.

[36] João Paulo II, Seminário Internacional Solidários pela vida, 09.10.1997.

[37] Catecismo da Igreja Católica, n. 2290.

[38] João Paulo II, Seminário Internacional Solidários pela vida, 09.10.1997.

[39] João Paulo II, Conferência Internacional do Pontifício Conselho para a Pastoral da Saúde, 1991.

[40] João Paulo II, Conferência Internacional do Pontifício Conselho para a Pastoral da Saúde, 1991.

[41] Ensinamentos de João Paulo II, XII, 2, 1989, p. 637.

[42] Ensinamentos de João Paulo II, VII, 2, 1984, p. 349.

[43] Dom Raymundo Damasceno Assis, Conjuntura Social e Documentação Eclesial, n. 424.

[44] Ensinamentos de João Paulo II, VII, 1, 1984, p. 1541.

[45] Cardeal Angelo Sodano, Pastoral da Sobriedade, Loyola 1999.

[46] João Paulo II, Seminário Internacional Solidários pela vida, 09.10.1997.

[47] Cardeal Angelo Sodano, Pastoral da Sobriedade, Loyola 1999.

[48] João Paulo II, Seminário Internacional Solidários pela vida, 09.10.1997.

[49] Documento de Santo Domingo, 241.

[50] João Paulo II, Exortação Apostólica Pós Sinodal Ecclesia in América, n. 61.

[51] Carta da Pastoral da Sobriedade, Guaratinguetá, 1999.

[52] Texto-base CF 2001, Vida sim, drogas não, p. 95.

[53] Papa João Paulo II, Exortação Apostólica Pós Sinodal Ecclesia in America, n. 61

[54] Texto-base da CF 2001, Vida sim, drogas não, p. 9

[55] Papa João Paulo II, Exortação Apostólica Pós Sinodal Ecclesia in America, n. 61

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